Tensão na madrugada

Dando continuidade à publicação anterior, após chegar no posto de combustíveis na cidade de Campo Alegre de Goiás, me oferecem café, dizem que existe um local para banho: água quente R$ 15,00, água fria R$ 10,00.

Acho muito caro, carríssimo na verdade, em outros locais que pareciam mais confortáveis já tinha visto cobrar até R$ 8 reais pelo banho quente.

Vou procurar hotéis na cidade, tenho pouco dinheiro (R$ 30,00).

O primeiro parece recém construído e limpo, porém a diária é de R$ 75,00, e não trabalham com pernoite.

O segundo a diária é de 50,00, e não aceitam cartão, o terceiro está lotado.

Me orientam em ir em mais dois, sendo que o primeiro esta sem vagas, pois todas foram ocupadas para hospedar os funcionários de uma empresa que está trabalhando na rodovia.

O segundo são várias kitnets, me orientam a bater em uma porta para conversar com o proprietário, porém não tenho sucesso nisso, resolvo voltar para o posto.

No caminho penso em procurar um local mais barato onde eu possa tomar banho.

Percebo que mais adiante de onde fui deixado existe outro posto , vou até ele e procuro informações.

Lá também não fica aberto durante a madrugada, mas o valor do banho quente é bem menor: R$ 5,00.

O banheiro é muito sujo e existe muita terra vermelha espalhada por todo o chão.

Tomo banho, mas antes tento melhorar a limpeza do local com um rodo.

Chegando ao posto de origem, tomo café com um pão de queijo, e conversando dizem que não fica vigia lá no posto durante a noite, eu penso: e agora, para onde devo ir?

Toda cidade está quase deserta e já são 23:00.

Ando mais um pouco na esperança de encontrar algum lugar que fique aberto 24 horas.

Uma lanchonete parece que faria isso, para que minha presença seja melhor aceita decido consumir, fico sentado alguns instantes e logo eles começam a recolher as mesas e cadeiras me comunicando que estariam fechando.

Decido seguir pela BR na expectativa de achar carona, um posto 24 horas, um pedágio ou qualquer outra coisa que possa deixar a virada da noite menos complicada.

Uma grande imprudência no mochilão!

Vou andando e observando as estrelas, o céu estava muito belo, a rodovia totalmente escura ajudava a realçar mais essa beleza.

Já era aproximadamente 1 hora da madrugada, sei que existem vários perigos mas não fiquei muito temeroso, alguns poucos carros passam por mim durante a noite, mas não dão carona, algo bastante óbvio.

A rodovia estava em obras, algumas máquinas estavam ao longo da BR, para mim foi só mais uma curiosidade.

Percebo que existe no outro lado da rodovia alguém com uma lanterna, estava meio distante, e os latidos de um cachorro.

Não me preocupo, apenas sigo meu caminho e aumento meus passos.

Quando chego bem adiante, um carro vem atrás de mim pelo acostamento, e logo que se aproxima liga suas sirenes e o motorista põe o veículo contra mim.

Na tentativa de sair de sua frente eu caio em um buraco de uns 80 centímetros de altura que estava sendo escavado ao longo do lado direito do ancostamento.

Pensei que fosse a polícia e fico esperançoso, pois, afinal, poderia conseguir uma carona. Ledo engano…

Um diálogo difícil e arriscado

O motorista saiu do carro e, sinceramente, eu nunca havia lidado com uma pessoa tão grosseira e ignorante em toda minha vida.

As perguntas eram curtas, mas pareciam retóricas,  pois, por mais que eu tentasse me explicar, ele nem deixava eu terminar e já colocava outra por cima.

Quando ele me parou, a pessoa que estava com a lanterna nos alcançou, e percebi que ele estava lá para dar cobertura ao cidadão do carro com sirene, da concessionária.

Com um cassetete em punho perguntava: “O que é que você está fazendo aqui?” “O que é que você tem nessa mochila? Você está com droga nela é? Se tiver com alguma arma aí eu vou te levar ali agora para a gente conversar”.

Perguntava o que eu estava fazendo andando junto às máquinas da rodovia, colocava a luz da lanterna, que era bastante forte, no meu rosto, mesmo depois de eu dizer que estava com problemas de vistas e buscava por tratamento.

Ele havia me mandado encostar no carro, eu fui fazer o que ele me pedia, e me perguntava se eu estava armado, eu disse que não, ele percebeu que era verdade e não me revistou.

Eu mostrei meus documentos, disse que era contador, contei minha história e o motivo de não querer ter ficado na cidade.

Não disse que estava mochilando, acho que ele nem saberia o que isso significaria. Compreender não era o seu objetivo.

Coloquei minha mochila no chão, ele a empurrou com o pé e pediu para seu colega revistar para ver se havia alguma arma, eu deixei.

Quando terminou e eu fui fechar, mostrei-lhe os exames que trazia comigo, ele disse que não queria sabe de papel, só queria me ver longe dos guardas dele.

Pedi uma carona várias vezes durante sua ação, ele disse que não tinha carona nenhuma para dar.

Perguntei o que ele me orientava fazer, ele disse que não era problema dele, só não queria que eu ficasse junto aos seus guardas, que eu “vazasse”.

No final, por várias vezes, quando eu perguntava se havia como ele me dar uma carona a resposta era lanterna na cara: “vaza, vaza”.

Sinceramente, eu já lidei com muitas pessoas difíceis, mas essa experiência me mostrou que a humanidade tem sempre algo pior guardado em si para nos apresentar e nos surpreender.

As pessoas se queixam da ação truculenta da polícia, porém, sei que sob nenhuma hipótese isso pode ser justificado, mas eles ao menos detém o poder mediante leis, e na maioria das vezes em que eu estive em alguma situação em que precisei ser revistado ou algo do tipo, depois de perceberem meus interesses e intenções, mudavam o tom da abordagem.

O quê, de certa forma, me deixou revoltado, mas sem a totalidade dos sentimentos que uma revolta pode gerar em mim,  e me fez notar na ação desse indivíduo uma grande ousadia foi que ele alí não estava representando o Estado, era um mero civil, representando os interesses de particulares.

Tudo bem (na verdade não tão “bem” assim) que quando começou a me abordar fosse grosseiro e agressivo para intimidar e mostrar controle, mas depois de explicada a situação nada justificaria isso.

Outra coisa, eu estou pesando nessa viajem 55 kilos, e tenho 1,80 de altura, e eram duas pessoas de estatura mediana e que facilmente poderiam me dominar, eu estava em total desvantagem, foi uma atitude totalmente covarde e de pessoas que não mostraram o mínimo de preparo, na verdade ele parecia estar sob o efeito de alguma substância, se aquele for o seu temperamento habitual eu sinto muito pelas pessoas que têm de conviver com ele.

Acho que alí foi a situação perfeita para que ele saciasse sua sede de opressão, e, caso não seja policial, de ao menos, por um ínfimo espaço de tempo, mesmo que de uma maneira bastante covarde, se equiparasse à maneira muitas vezes caricata com que a sociedade hoje em dia qualifica errôneamente a atuação desses profissionais.

Não fiquei nervoso, mas esperava que em qualquer momento ele fosse usar o cassetete em mim, ou então fazer algo pior.

Foi um ponto crítico na viagem.

Passada a situação caminhei de volta à cidade, quando nela cheguei já era quase 3 da manhã, fiquei na rodoviária e aguardei o ônibus para me levar mais adiante.

“Essa noite foi tensa…”

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